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Teresa Alves | 12.05.09

Peregrinação a Fátima

Para quem leva a religião mais a sério, aconselho seguir viagem e ir visitar outro blog. Ou então a ler o primeiro parágrafo deste texto antes de prosseguir. Ah, e esqueçam lá isso das maiúsculas em nomes próprios, não é relevante para o caso. Obrigada.

 

Tudo começou há, muito, muito tempo, já o absolutismo do rei sol se tinha instalado havia tempos na château de versailles. Nessa altura havia abundância de riquezas que vinham dos locais remotos então descobertos, verificando-se uma ascensão de comércio brutal que originou a primeira definição de fronteiras comerciais, o mercantilismo. Basicamente era uma série de impostos alfandegários para conseguir o máximo de metal precioso possível. E onde há lutas pelo dinheiro há lutas pelo poder. Seja político, militar, ou religioso. E é aqui que a porca torce o rabo.

 

Para representar o poder de deus, a igreja também se encheu de luxo. Até ao ponto de uns quantos religiosos insatisfeitos, elevarem a voz da sua sua contestação do exagero da ostentação de riqueza da igreja ao ponto de abandonar a igreja católica, só mais tarde chamada de apostólica romana, e para uma reforma da mesma, formando as igrejas protestantes. A maior crítica à igreja era a do culto aos santos, que para falar com deus não eram precisos intermediários. E foi precisamente esse ponto em que a igreja se concentrou na contra-reforma. Mas nem só esta pérola saiu do concílio de trento, o index e o tribunal da inquisição foram outras fortes medidas adoptadas para combater os traidores.

 

Durante o barroco, que muitos nem consideram ser um estilo, mas apenas uma deformação da pureza idealista do classicismo pelo exagero emotivo, poucos artistas conseguiram furtar-se às encomendas papais de temas quase exclusivamente religiosos, simbólicos e chocantes. Alguns não terão pintado ou esculpido um único tema pagão. Mas a grande marca dos tempos a partir do século XVI, foi a hipocrisia onde o teatro da vida nas cortes, únicos centros culturais, era cuidadosamente representado. A vida era um palco onde o rei era o actor principal. Fora da corte, a igreja manipulava o povo, tornando religiosas tantas das festas tradicionais que enriquecia com mais peditórios, e a ricos e pobres cobrava as indulgências, claro, que era como quem vendia lotes de terreno no céu. Isto faz-me lembrar os livros bíblicos ilustrados onde se vêem bambis a esfregarem-se nos leões ao pé criancinhas sorridentes. Non sense.

 

Foi assim que se encheram as igrejas de santos e santas com nomes próprios ou inventados com base nos milagres atribuídos, todos envoltos em mistério e com poucas testemunhas. E, claro está, havia medidas cautelares para quem ousasse duvidar. É neste cenário que o culto dos santos pela igreja se intensifica até ao extremo, tendo-se demorado pelos locais mais remotos do domínio católico, e portugal é um excelente exemplo do atraso no desenvolvimento que uma sociedade religiosa impõe.

 

Se contextualizados geográfica, histórica e culturalmente, é fácil de perceber que os miúdos que andavam a guardar o gado, enveredando por correrias e brincadeiras naturais da idade, normalmente com uma côdea de pão e um naco de toucinho no bucho, tivessem apanhado uma valente insolação que terá provocado um delírio colectivo interpretado como visão da nossa senhora de fátima. Eu nem estranharia que tivessem trincado uns cogumelos mágicos. Em maio tanto chove como faz um calor intenso, pelo que não é de todo impossível de ter acontecido havê-los por ali.

 

Mas não compreendo que haja tanta gente que se deixa levar pela promessa da salvação, servida numa travessa doutrinal de diminuição do indivíduo até à total incapacidade de respirar sem a autorização de um deus. E que jogue no totoloto da esperança de rezar e pedir e ficar à espera do milagre em vez de arregaçar as mangar e fazer-se à vida. E não compreendo que no século XXI se continuem a fazer as peregrinações de penitência que se difundiram na europa da idade média.

 

Mas o que menos compreendo nas pessoas religiosas que acreditam na omnipresença do seu deus, é aceitarem ir à retrete sabendo que o gajo está a ver. Bastava um bocadinho de amor próprio para as pessoas se deixarem dessas merdas.

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um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro