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Erva Daninha | 27.07.08

Loucura

Fiódor Dostoiévski consegue dizer as pessoas com tudo de bom e de mau de forma tão equilibrada que não influencia a tomada de partido do leitor, e este, sente o que é, mesmo que distraído, e não o que lhe pudesse ser proposto, pois nada lhe é apresentado em termos de opção. É-lhe proposto o todo, imparcialmente. E é surpreendente poder admirar traços do raciocínio existencialista de um Bákhmutov1.

Se é possível observar o todo do outro ou do próprio sem partido, será também possível apreender factos sem preconceito. Mas se assim é, onde está a lucidez, o exercício, o pote de ouro no fim do arco-íris cheio de capacidades de olhar o próprio e o outro com os mesmos olhos, sem ter de bater com a cabeça no muro do desentendimento e mesmo assim arriscar não perder toda a informação e conceitos prévios. Ninguém viu que viesse contar.

Lucidez! Fiódor! Alguém! Silêncio. Os neurónios escorrem pelas pedras da calçada mergulhados no sangue dos últimos membros a saltarem sob a espada da loucura. O céu fica mudo de incredulidade e o GPS emocional descarta o caminho de casa.

Silêncio, que o tempo parou.
...


Nos escombros das guerras interiores, podem sempre ser encontrados pedaços do outro, quase sempre arrancados à revelia de um entendimento qualquer, comum ou individual.


 


 


1 personagem de O Idiota, de Dostoiévsky.

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moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro