Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Gato Vadio | 11.06.11

Pina Bausch

 

A ideia era saber mais. Saber mais vem da curiosidade, que é a única coisa que arrasta um gato vadio para uma sala de cinema (como para qualquer outro lugar), já que não faço parte dos felizardos que fazem coisas por puro entretenimento. Saber mais no sentido de aprender. Mais, claro. Mas também melhor. Mas não. Nem sempre é assim.

 

Pina Bausch era uma pintora. Pintava cenários emotivos. A sua técnica era o movimento. O que vem da dança e o que vem das próprias emoções. Esperava dos bailarinos que, enquanto tal, dessem um contributo pessoal, único. Nothing new here.

 

Mas depois ela morre. Ficamos sem a pessoa que desenhava com gente as emoções que todas a gentes são capazes de sentir mas tantas vezes incapazes de descrever. Ela descrevia cada emoção com a matéria prima da mesma. E daí esperar que cada dançarino se exorcizasse. Cada bailarino tinha a sua parte de identidade e unicidade. Desde que as possuísse, claro. E eu achava que sim. Que seria bom ver mais, saber mais, sobre Pina Bausch, claro.

 

Só na bilheteira soube ser um filme em 3D. Virar costas, pois então. Mas quando se vai ao cinema com uma amiga, fica mal desistir. E portanto eu, gato vadio que teima em deambular por este jardim terrestre cheio de humanos tão criativos, aceitei o desafio de ver como seria.

 

Pensava que seria mau. Foi pior. Porque não havia necessidade de efeitos 3D que oferecessem brilhos desnecessários e roubassem pormenores preciosos. Fica tudo dito.

 

Os quase vinte minutos de publicidade totalmente descontextualizada que só se aguenta na condição de presos num compromisso que obriga a estar ali, são exímios destruidores de qualquer sensibilidade que se quisesse ver beijada pelos movimentos emotivos que se esperam sempre que se ouve pronunciar "Pina Bausch"...

 

Forçar o efeito da repulsa e ficar, curiosamente, não nos torna seres melhores. Apenas nos faz parecer, ante os outros, mais tolerantes. Mas é mentira. O que somos e o que sentimos está sempre lá.

 

O filme não passa de uma acção de promoção da companhia de teatro e dos dançarinos que com ela lidaram. Ah e tal, ela morreu, mas nós, que nunca chegámos a perceber nada do que se estava a passar diante dos nossos olhos, vamos agora apresentarmo-nos como os tais. Os que beberam da fonte. Os mais dos mais. Porque beberam. Porque estiveram lá. Ah e tal, ela disse-me uma palavra em vinte e dois anos, ah que feliz que eu sou agora que ela morreu porque posso afirmar publicamente que não percebi nada...

 

Bebi os bocados de Pina entornados na coisa. Cuspi o oportunismo. Ficamos assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)


2 comentários

De Pedro a 10.07.2011 às 18:35

Hmmmm, fico com a sensação que os 20 minutos de publicidade do UCI "estragaram" um bocado a tua percepção do filme. Digo isso porque aconteceu quase o mesmo comigo (20m, entre trailers e sketches nada cómicos é um teste à paciência de qualquer espectador bem-intencionado).

Digo quase, porque amei o filme. Não é linear, não se percebe tudo, mas há pequenos momentos de "ah, isto faz sentido" ou simplesmente "uau, isto é lindo" que apaixonam. Há ali vida, em todo o seu espectro (beleza, desespero, alegria, etc), e é tudo conseguido e traduzido em movimento, sem falas ou explicações (mesmo quando os bailarinos "falam", não o fazem directamente, mas só com o olhar, o que eu achei um recurso/ideia incrivelmente tocante).

Se não fosse um filme de Wim Wenders, diria que é algo que exige muita coragem fazer ou arriscar em cinema. As coreografias de Pina, por exemplo, segundo o que li, foram inicialmente recebidas com protestos por parte dos públicos.

Já para não falar da vontade com que fiquei de ficar a conhecer aquela Pina, e aquele método aparentemente estranho de trabalho, de confiar plenamente no bailarino e na sua capacidade de expressão. Aparentemente, se a gente não conhecesse uma Pina no nosso piso ;)

Comentar post




moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro