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Teresa Alves | 31.03.12

Digestão

Num contexto pessoal ou social é relativamente fácil decidir as pessoas de quem nos fazemos acompanhar (desde que não ande um stalker a inventar, claro). Já num contexto profissional estão reunidas as condições para observar repetidas vezes a facilidade com que o alpinismo hierárquico é utilizado como tentativa de manipulação e subversão da realidade das coisas. E é impressionante observar o encadear estonteante de desrespeito pelos outros. Pela pessoa, pelo trabalho e pela inteligência dos outros.

 

Não consigo caracterizar o que sinto em relação às pessoas que se escondem atrás de uma máscara precária de princípios. Porque embora as máscaras façam parte da própria comunicação humana, utilizá-las convencido de ser-se melhor do que os outros com elas, é o mesmo que admitir ser pior sem elas.

Faltam-me palavras domesticadas que consigam exorcizar a frustração sem entrar em novelas desnecessárias. Palavras que descrevessem graciosamente as horas que esticaram dias e fins de semana no remendo constante de um projeto que começou já descaracterizado. Palavras que me permitissem falar de um fundamentalismo mascarado que não entende as fronteiras naturais do respeito humano.

 

Mas uma vez que não encontro tais palavras e me parece ter gasto todo o vocabulario educado de que disponho no momento, caralhinho!

 

Que se fodam as pessoas que fodem os outros. Que se fodam as infelicidades crónicas que não deixam ficar em casa. Que se fodam as carinhas de anjo que se metamorfeiam nos cantos obscuros. E que se foda que nos queiram foder a nós.

 

Como em todos os dissabores e confrontos, mesmo nos mais empobrecedores, algumas horas de nojo chegarão para digerir a coisa, ainda que o cansaço acumulado as tenha esticado mais do que esperado. Para além disso, amanhã não será preciso regar as plantas da varanda.

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cenas ao molho:


2 comentários

De Fernando Lopes a 31.03.2012 às 09:40

Todos vivemos situações conflituais no trabalho. Tenho uma teoria, imprecisa como todas as que desenvolvo. Tempos difíceis, de insegurança no posto de trabalho, fazem florir a filha-da-putice. Ele é os anões que se agigantam, as falsas estrelas que emitem um brilho que de facto, não possuem, os que se agarram a pequenas descobertas que não partilham <i>and so on</i>.


Cumpre à estranha espécie que padece do vírus da integridade ignorar olimpicamente o virus, caminhar como <i>sapiens</i> e deixar as manobras sinuosas e viperinas a essa subespécie.

De Teresa Alves a 31.03.2012 às 11:02

Felizmente, e não obstante a azia de certas refeições, sentimo-nos sempre renovados uma vez feita a digestão.

Isso e o facto de um grão de areia, não obstante o incómodo que possa causar na pele numa situação de atrito, não passar de um grão de areia.

Porque o tamanho do problema também depende irremediavelmente da sensibilidade dos momentos em que nos deparamos com eles. E isso pode funcionar como uma lupa desconcertante.

Por isso as digestões também servem para ajustar as lentes do entendimento, reduzir o contraste emocional, aumentar o brilho racional e focarmo-nos em objectivos maiores (e fica a malfadada refeição desvalorizada :-)

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