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"Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, donde este bichedo vem é que não se sabe, e sendo tão rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixo cinquenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da coceira. Em noites que vem el-rei, os percevejos começam a atormentar mais tarde por via da agitação dos colchões, são bichos que gostam de sossego e gente adormecida. Lá na cama do rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue. que não acham nem pior nem melhor que o restante da cidade, azul ou natural.

 


D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu dever, e tudo espera do convencimento e criativo esforço com que o cumpriu, beija-lha como a rainha e futura mãe, se não presumiu demasiado frei António de S. José." ...

 

 

 

Excerto do Memorial do Convento, de José Saramago, em releitura devido a estudos escolares.

 

O que mais me intriga é ouvir pessoas dizerem que gostavam de ter vivido neste tempo...

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Gato Vadio | 05.01.10

The power of books


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cenas ao molho:


Teresa Alves | 07.09.08

Mil novecentos e oitenta e quatro

"Tivera por instantes a sensação de mergulhar uma vez mais no pesadelo que se repetia de tempos a tempos na sua vida, quase sempre igual. Encontrava-se diante de um muro de trevas, e do lado de lá havia qualquer coisa insuportável, demasiado pavorosa para poder ser enfrentada. No sonho, a sensação mais forte era sempre a de enganar-se  a si próprio, pois, no fundo, sabia o que estava atrás do muro de trevas. Com esforço mortal, como o de arrancar um pedaço do próprio cérebro, até poderia trazer essa coisa à luz do dia."


 


página 150


 

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moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro