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Erva Daninha | 25.07.12

Memórias

Incríveis as viagens que podemos fazer numa única caixa com fotografias e correspondência que fazm que a mais louca e desconcertante história, que foi do amor ao desentendimento, se reescreva num ápice ante os nossos olhos.

 

Nos percursos acidentados, o contraste das memórias é gritante. Tantos sorrisos manchados por erros que os sucessivos pedidos de desculpa não conseguiam abraçar. Tantas imagens confusas, sobrepostas. Tanta coisa acumulada pela incredulidade.

 

O que mais se encaracola nas minhas raízes de tanto desentender é a guerra que as pessoas transportam e com a qual constroem as realidades que temem. Ou que procuram. E é sabido que se procuramos uma coisa específica, encontramo-la. Mesmo que não esteja lá.

 

Recordo um qualquer episódio de uma série em que alguém filmou pela janela duas pessoas enroladas. Quando a câmara estava do outro lado via-se uma pessoa sentada e outra de cócoras a mexer em algo no chão. Visto da janela só podiam estar a fazer sexo. E é apenas um caso em que uma imagem não vale palavra alguma.

 

Existe esta coisa que a psicologia explica melhor do que eu e que passa pela alteração do processo de análise quando se está focado, não no que se procura, mas no que se espera encontrar. Procurar implica estar aberto a descobrir algo desconhecido. Procurar determinada resposta implica acabar por vê-la em todo o lado. Um bocado como acontece com os "avistadores" de óvnis. Querem ver o óvni e vêem-no. Nem colocando a possibilidade de outra coisa qualquer inatingível daquele ponto de observação. Pior ainda é quando o vizinho, escondido atrás do muro, também afirma a pés juntos ter visto o óvni. E tantas imagens comprovam a observação do que se queria tanto observar...

 

Diz o povo "Ver para crer", e com essa ideia fica de fora a necessidade de contextualizar. E interpretar. Sem isto as sombras na parede são pessoas. Os vultos parecidos são outros. É verdade o que vai ao encontro do que se procura e mentira tudo o que deitar por terra as ilusões já transformadas em realidade, de tanta "matemática" a servir a vontade de encontrar determinada resposta. A coisa vai ao ponto de ver coisas em todo o lado, pela boca de toda a gente. Para ver é preciso abrir o entendimento. E tal não é possível se este estiver cheio do que se quer encontrar.

 

A dada altura entra-se num beco que parece não ter saída. As agressões em que se acredita crescem e com elas cresce o desejo de vingança. Porque a dada altura a vida é simplificada, quando todos os caminhos vão dar ao mesmo culpado. Ficaram simplificados todos os erros, todas as mentiras, todos os testes, todas as más escolhas, com o benefício de uma consciência liberta pela fantasia e provada pelas sombras. E se mais provas não existissem, há sempre os contactos do além que chegam nas madrugadas de desassossego e contam toda a verdade.

 

Felizmente temos o tempo. Às vezes a passo de caracol, outras a alta velocidade. Mas que às tantas nos dá a possibilidade de respirar fundo e condescender. Condescender na memória da desconfiança sem fundamento que pelo ciúme começou a roer a corda. Condescender na memória dos excessos, das injustiças, das acusações mirabolantes. Condescender na memória da perseguição irracional e invasiva.

 

Quando se consegue sentir condescendência na memória do passado, há a esperança de encontrar, na memória do futuro, apenas a história de amor, depurada de todos os conflitos. À memória virão apenas os sorrisos os abraços e os beijos. E o perfil desnudado no calor do areal.

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Erva Daninha | 22.07.10

Agora

Qual o peso do sangue ante a ausência, ainda que em presença física. Quais os links que nos prendem irremediavelmente a uma vida finda, prolongada de dramas reais uns, inventados e ampliados outros. Olhamos em frente e não percebemos bem se é um espelho ou um castigo, uma sequela gasta de oportunidades novas depois de apanhados os cacos da última derrocada, ou se apenas um sonho que nos fustiga de soslaio.

 

Uma das chaves da vida parece residir na forma como gerimos a memória das encruzilhadas humanas. Não é tão importante se terá corrido bem ou mal, mas o que fazemos com o conhecimento que daí adveio. A moral é fácil compreender, mas na prática, a porca torce o rabo, principalmente quando há má digestão, vulgo pontas soltas ou nó na garganta, ou ambos.

 

Quando no entendimento rasgado não cabem os meandros de uma alienação que trás no encalço a morte, fica-se vazio de expectativas. Aqui o peso do sangue é nulo. Assim como o da memória. Fica o agora. E às vezes é demais.

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moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro