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Não é muito fácil explicar a alguém que se pensa em imagens. E menos ainda tudo o que lhe esteja associado.


 


Na internet, por exemplo, o pensador visual navega por intuição, detectando logo erros de wayfiding (traduzido à letra, "encontrar o caminho") que os pensadores verbais, que ainda são a maioria, tendem a não valorizar. Primeiro porque a sua memória verbal permite decorar caminhos "sem sentido" (não-intuitivos) e depois porque, não tendo dificuldades na navegação devido à memorização verbal do caminho, não valorizam os apontamentos dos pensadores visuais e não implementam o necessário para melhorar as condições de navegabilidade.


 


Isto não acontece apenas em Internet. Acontece com o tráfego de veículos e pessoas em locais cuja sinalética, não só não ajuda como ainda confunde mais. O wayfinding contempla, para além do planeamento e desenho dos fluxos, a sinalética necessária para garantir a autonomia das pessoas que se deslocam num determinado espaço.


 


Felizmente, as coisas começam a mudar. O pensador visual, seja lá por ser disléxico, autista, ou até que não se saiba bem porquê, começa a ser mais reconhecido pelas suas capacidades extraordinárias e menos rejeitado pelas suas dificuldades.


 


E finalmente, o vídeo que me provocou toda esta reflexão, e do qual retenho um pormenor que esteve já na base de muitas dificuldades de expressão: "ter uns circuitos a mais num lado e a menos no outro". Porque não temos de ser todos bons no mesmo.


 












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Teresa Alves | 09.08.09

emoções e palavras

As descrições assertivas de vocabulário rico mas sem emoção, são o simples aproveitamento de uma acção ou de um momento, como muleta para uma definição aparentemente diferente, mas que abraça o mesmo conceito generalista. Não basta dizer o choque, a surpresa, a alegria ou a tristeza, a raiva, o delírio, o amor, o abandono ou a salvação, pois já são sabidos. É preciso o momento. E em cada momento, o que torna o conceito único é a emoção.


 


Estranha é a mente que pensa em imagens cuja sequência é como uma montagem de vídeo, mas que também pensa em sons, e talvez por isso teime em expressar-se apenas em palavras e a fraca capacidade de as reter resulta num vocabulário limitado, sendo apenas possível dizer as sensações pela conjugação que permite significados terceiros, tantas vezes incompreensíveis aos outros.


 


Curiosamente, na necessidade de registar um momento, a descrição das formas cores e movimentos, só serve se para dizer as emoções, pois estas são o todo, o sumo, o âmago de ser e de estar, o sentido de cada instante. Mas são sempre precisas palavras, para traduzir os diálogos sonoros do entendimento.

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Vivemos tempos fantásticos de informação na ponta dos dedos, respostas que surgem em cataratas de dados após segundos de busca. Mas é preciso filtrar. E é aqui que a porca torce o rabo.


 


Quem vier dos tempos em que a internet ainda era ficção, e que por entre portas mal abertas e janelas mal fechadas perde uma data de tempo e às tantas a internet até já está aí. Se ao acordar ainda se levar pelas trombas com uma ingénua pergunta do chefe "T., are you dislexic?" "Am I what?" e descobre que afinal não é mesmo um gajo normal (e não é pela loucura, mais ou menos  saudável, que costuma chamar a expressão à conversa).


 


Se não se for de baixar os braços, vai-se e devora-se a informação toda que se encontra. No início marcha tudo. Depois começa-se a perceber a sua localização na história da evolução humana dos últimos séculos e descobre-se que as coisas, afinal, não são bem assim...


 


Após uma breve pesquisa no Google, encontra-se uma definição pouco mais do medíocre, na tão procurada Wikipédia (link), tudo é resumido a uma deficiência física. Este informação é histórica e não científica. Era científica no século passado, agora é bolor. O mais estranho acaba por ser o facto de um deslindar de incapacidades descambar numa lista de disléxicos conhecidos, parte dos quais, génios reconhecidos.


 


Rorschach foi o criador do famoso teste com o seu nome. E aproveito para deixar registado que considero normal que erros sejam cometidos na evolução das ciências humanas, nomeadamente Rorschach há cem anos atrás, mas nada tem de normalidade que apontamentos históricos continuem a ser tomados como científicos, pois é tão ridículo quanto teria sido ignorar Copérnico e continuar a vender Aristóteles.


 


Rorschach levou a sua àvante na década de vinte do século passado, quando a investigação neurobiológica ainda aguardava o avanço tecnológico que a levasse, como tem levado, em frente. Mas cedo começou a perceber-se que a dislexia (dis=dificuldade; lexia=palavra) se revela na dificuldade de interpretação dos símbolos da linguagem escrita, mas é sempre acompanhada por um pensamento fortemente visual. Até aos anos 70 apenas as questões relacionadas com a linguagem foram consideradas, e as congénitas e genéticas deficiências físicas que dificultassem a sua aprendizagem e utilização foram-lhe associadas. Quanto aos talentos criativos, de lógica e matemática aplicada, até alguns anos atrás, não tinham sido considerados.


 


O famoso, mas obsoleto desde a sua concepção, teste de Rorschach, que alguns ainda vendem e defendem, continua a ser combatido, porque o risco que representa de prejuízo pessoal grave para o individuo considerado deficiente, parcial ou totalmente, pelo duvidoso e pragmático teste não é considerado por quem o defende. O pensamento visual é logicamente diferente, e permite um nivel de criatividade inovador. Permite. Não significa que todos os disléxicos sejam génios. Mas antes que têm capacidades que devem ser exploradas e aproveitadas.


 


A neurobiologia explica os fenómenos bio-químicos do nosso cérebro e sistema nervoso, e a relação causa-efeito que os induz. A óptica intra-ocular não será o único processo a acender a tela de projecção dos pensamentos, e actividades como a comunicação, processando-se em pleno mesmo numa base visual, também induzem quimicamente o cérebro e a projecção de imagens acontece. O processador é de igual potência, o sistema operativo é mais gráfico. So what.


 


Finalmente, o motivo deste texto: Um livro que comecei a ler hoje: In the Mind's Eye: Visual Thinkers, Gifted People With Dyslexia and Other Learning Difficulties, Computer Images and the Ironies of Creativity (Hardcover) que pode ser consultado aqui e adquirido aqui. A informação existe em todo o lado. A procura deve ser objectiva. E o sentido crítico deve estar sempre ligado.

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Teresa Alves | 20.07.08

Erros

... or2gráficos e não só


 


Não é fácil lidar com os erros, principalmente quando se quer muito não os cometer.  E não são os erros propriamente ditos, o que chateia mais, mas a névoa de uma certa ansiedade não encomendada nem bem-vinda, que nos remete para uma espécie de cegueira que nos inibe de explorar alternativas.

Já houve tempos em que Rorschach remetia o pensamento visual para a incompetência mental. Hoje sabe-se que não é assim, às vezes pelo contrário (raramente). O pensamento visual olha para a representação gráfica de uma palavra como quem olha para um desenho. A associação de fonemas nem sempre faz sentido e quase nunca contempla emoções. Mas existem ferramentas para a parte da ortografia, correctores e dicionários, online, o mesmo não acontecendo com mnemónicas que devolvam a nomenclatura, as datas e as coisas sem interesse genuinamente humano.

Assim, é fácil aceitar perder certos momentos de atropelamento emocional. Já não é tão fácil aceitar que se cometam erros básicos de ortografia, numa segunda via de um qualquer procedimento encontrado, e ainda engolir o sapo da desatenção que a euforia rasga ao cansaço.

Prometo que vou ser uma boa menina, que vou dar de mim, que vou estar atenta e que não darei mais erros or2gráficos. Mas que merda. Esta sensação infantil de julgamento constante. Este medo de, afinal, poder não estar à altura. Pelas energias divididas pelos dias compridos de mais. Por tantas coisas que falta aprender. Por tudo e por nada.

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moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro