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A segurança alimentar anda na boca dos jornais a arder em várias frentes. Isto rebentou porque a ASAE, deixou de analisar alimentos há meses por falta de dinheiro. Como sempre, é o estado o grande devedor e, consequentemente, o grande causador da ruptura.

 

O Pingo Doce, por outro lado, vende carne de frango em más condições desde janeiro. Aqui "frango" e "janeiro" são apenas balizas da experiência que me leva a falar disto. Na loja e no Apoio ao Cliente, espantam-se que apenas eu me queixe. E eu também me espanto.

 

Depois de pesquisar e consultar pessoas sobre o assunto, concluo que a sensibilidade às bactérias varia. Em função do indivíduo e, cada um, também terá períodos de maior ou menor sensibilidade. Os temperos que se adicionam no início da confecção serão os responsáveis pela camuflagem do cheiro. E são precisamente as inúmeras variáveis que dificultam o apuramento das causas.

 

Mas eu estava doente da barriga e quis fazer uma canja. Depois de colocado o frango, mal a água levante frevura topa-se logo um cheiro que nada tem a ver com canja de galinha. Na dúvida, é tirar um pedaço para uma tijela, abrir-lhe um rombo até ao osso e cheirar.

 

Foi tudo imediatamente para uma caixa e entregue, ainda quente, na loja. Menos de uma hora depois de o ter comprado. As primeiras duas vezes foi frango embalado. Na última vez, do talho. O resultado foi igual. O laboratório confirmou condição bacteriana anormal em todas as amostras.

 

E lá vamos nós à segurança alimentar. Os senhores ligaram a dizer que de facto detetaram falhas nos procedimentos daquela loja, que  accionaram acções de sensibilização dos funcionários, e teca teca (teca teca até é um termo carinhoso, aqueles anormais fazem questão de ler um relatório escrito de duas páginas a4).

 

Até me pareceu bem. Humildes. Erraram, assumiram, corrigiram. Até aqui tudo bem. Mas afinal é tudo MAL, pois umas semanas depois da leitura do relatório aconteceu de novo. Há dias, em resposta à última queixa, com os habituais meses de atraso, tentaram impingir-me o novo relatório.

 

E que queriam garantir a confiança dos clientes, e que eu devia compreender que o frango é um produto alimentar muito sensível a alterações de temperatura, e que fizeram acções de sensibilização, e que... Interrompi, claro. Nem queria acreditar.

 

Agora é declarar a coisa resumidamente no livro vermelho para que a ASAE receba a cópia respectiva e actue. E lá voltamos à segurança alimentar com a ASAE a bater com a porta por falta de pagamento. Bonito serviço.

 

Os Pingos Doces da nossa triste realidade continuarão a estar isentos em tantas intoxicações alimentares e gastroenterites de pai incógnito. E continuarão a desmotivar-se na deslocação dos alimentos e continuarão a receber acções de sensibilização. Continuarão espantados por tão pouca gente topar e mais ainda por tão raro surgir queixa. E terão ainda mais lucro porque não há quem analise e detecte infracções. Muitos continuarão a atirar o frango directamente para o sal do churrasco ou para o refogado e desses alguns continuarão a sentir, a espaços, a barriga inchada, gases, diarreia ou obstipação, tudo sintomas altamente dignificantes e mínimos, que dispensam o trabalho de olhar certos descontos com outros olhos.

 

Quando mais é precisa a ASAE vai ao tapete. E não venham com cantigas de falta de dinheiro, que o estado português tem para dar e esbanjar.

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Teresa Alves | 06.03.11

Os Homens da Luta

 

Têm rebentado por aí opiniões muito diversificadas sobre o fenómeno, chamemos-lhe assim, afinal, dá sempre jeito atribuir um nome monumental a tudo o que não sabemos classificar, mas dizia eu que os há indiferentes e revoltados, contentes e enganados com esta representação lusa no euro-festival, que agora já sou eu a não querer saber se ainda se escreve com hífen ou se nunca assim foi.

 

Fico sempre um bocadinho arrepiada quando a razão me estende o tapete vermelho da vergonha. E enquanto portuguesa, sou parte de uma entidade colectiva cujo semblante global não depende de mim exclusivamente, pelo contrário. E daqui espreita a tal vergonha, à falta de melhor expressão. A economia portuguesa é uma provocação da classe política, de uma ponta à outra, que o povo tolera porque tem mais o que fazer. E sinto-me envergonhada de ser assim, povo que não avança.

 

Depois fica-se parvo que as pessoas não se revejam. Mais ainda por não conseguirem ver o todo e assumir cumplicidade. Por passividade ou contrariedade. O facto é que se um bando de malucos que se chega à frente cheio de confiança a dizer barbaridades, então talvez não o sejam assim tanto. Porque o seu trabalho é fazer de espelho, não obstante a distorção criativa vestida de humor.

 

Uma coisa é não gostar de pertencer a um país atolado de arrogância, chico-espertice e absentismo. Outra é não gostar de o ver representado como uma caricatura certeira. Porque é como se nos estivessem a parodiar a nós todos. E é mesmo isso. Totós.

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moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro