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"Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, donde este bichedo vem é que não se sabe, e sendo tão rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixo cinquenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da coceira. Em noites que vem el-rei, os percevejos começam a atormentar mais tarde por via da agitação dos colchões, são bichos que gostam de sossego e gente adormecida. Lá na cama do rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue. que não acham nem pior nem melhor que o restante da cidade, azul ou natural.

 


D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu dever, e tudo espera do convencimento e criativo esforço com que o cumpriu, beija-lha como a rainha e futura mãe, se não presumiu demasiado frei António de S. José." ...

 

 

 

Excerto do Memorial do Convento, de José Saramago, em releitura devido a estudos escolares.

 

O que mais me intriga é ouvir pessoas dizerem que gostavam de ter vivido neste tempo...

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Teresa Alves | 25.06.09

Saramago



D' O Caderno já tantos mais instruídos terão dito de sua justiça, para além do próprio José Saramago o ter, de facto, apresentado.


 


Do blog e das motivações e das diferenças e do caminho mais lúcido, saíram as palavras que foram ditas e ouvidas por todos.


 


Do homem ficaram uma quantas lições. "Cada pessoa, em primeiro lugar, tem de acreditar em si próprio" A naturalidade com que mostrou, logo após dizer que a palavra bloguista lhe parecia algo insultuosa, e que blogueiro não melhorava nada, ser mais confiante do seu papel enquanto autor de um blog, do que muitos autores de blogs de há vários anos. "Devemos procurar pensar historicamente, pensar a história de hoje para ontem, do presente para o passado, para compreender primeiro as consequências e depois as causas"


 


Saramago tem um orgulho imenso no prémio Nobel, claro, quem ficaria indiferente, mas ao invés de o exibir, como tantos fazem por muito menos, veste-o como uma responsabilidade, uma missão.


 


Quando viramos costas e abalamos, vem connosco a melodia emotiva de algumas ideias, palavras a deslindar emoções da correspondência em que as pessoas falam delas mesmas, memórias dispersas de pessoas conhecidas, e uma brisa fresca de incómodo de um começo de Verão despropositado, e ainda ecos do início da apresentação, a sua pergunta Mas afinal o que significa a palavra blog, e todos mudos, nós também, e Saramago a confessar não gostar de utilizar uma palavra da qual não conhece a génese nem o significado, e nós ali parados a olhar feitos parvos. Se assim era pouco lhe importava se teriam de ser posts em vez de blogs, que atentos todos poderiam dizer quando uns e quando o outro, afinal a mensagem estava tão acima disso.

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cenas ao molho:



moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro