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Teresa Alves | 08.10.13

Não vá uma pessoa esquecer-se

Às vezes subimos a fasquia do investimento num trabalho porque gostar que corra bem tem destas coisas.

Depois ainda somos atropelados de configurações corruptas, internet a conta gotas e uma sinusite de estimação a miar.

Até ao momento em que pára tudo. Pára o relógio e fica um burburinho de árvores aos gritos, Não vá uma pessoa esquecer-se de viver...

E amanhã voltamos a subir a fasquia do investimento num projecto cheio de vontade de ser. E voltamos a apagar incêndios disruptivos. Voltamos aos atropelos tecnológicos e às mazelas de estimação.

Amanhã voltamos.

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Erva Daninha | 22.07.10

Agora

Qual o peso do sangue ante a ausência, ainda que em presença física. Quais os links que nos prendem irremediavelmente a uma vida finda, prolongada de dramas reais uns, inventados e ampliados outros. Olhamos em frente e não percebemos bem se é um espelho ou um castigo, uma sequela gasta de oportunidades novas depois de apanhados os cacos da última derrocada, ou se apenas um sonho que nos fustiga de soslaio.

 

Uma das chaves da vida parece residir na forma como gerimos a memória das encruzilhadas humanas. Não é tão importante se terá corrido bem ou mal, mas o que fazemos com o conhecimento que daí adveio. A moral é fácil compreender, mas na prática, a porca torce o rabo, principalmente quando há má digestão, vulgo pontas soltas ou nó na garganta, ou ambos.

 

Quando no entendimento rasgado não cabem os meandros de uma alienação que trás no encalço a morte, fica-se vazio de expectativas. Aqui o peso do sangue é nulo. Assim como o da memória. Fica o agora. E às vezes é demais.

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Gato Vadio | 04.03.10

Rua a baixo


 


O olhar perdido pelos pormenores das ruelas solta os pensamentos que podem assim diluir-se com a chuva miudinha que parece murmurar uma cantilena perdida na memória fosca. Para trás ficam as horas a fio de espera por consultas e exames e justificações e medicamentos inevitáveis. Com algum esforço arquivam-se também as informações trocadas que induzem em erro, a falta de ética que diz a alguém que será grave sem saber de nada, as desculpas esfarrapadas para o secretismo que atira uma semana inteira para o colo do medo de não ser capaz. Fim de tarde rua a baixo Alfama dentro a caminho de casa, com duas paragens para cumprimentar um gatito sonolento e para uns instantes de namoro com o Panteão sempre imponente de histórias apenas um pouco mais antigas que as obras de restauro que lhe coroam a cúpula de andaimes espinhosos.

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Teresa Alves | 20.01.10

Haiti

Ficar doente tem destas merdas. Um gajo a dada altura atira-se para o sofá de telejornal em curso sem qualquer noção de há quanto tempo isto não acontecia e leva pelas trombas com os cenários humanos mais incríveis de sofrimento e abandono.

 

Pelas redundâncias e repetições, percebem-se as linhas a partir das quais a informação é tratada como numa série de investigação criminal que cada canal dirige de acordo com a sua sensibilidade.

 

É precisamente na linha em que deixa de ser informação e passa a ser circo que os meios de comunicação deviam ter a consciência social de resguardar um pouco a dignidade das comunidades retratadas em condições extremas de fragilidade.

 

Como é que se sentiriam se tivessem câmaras constantemente a filmar a vossa miséria. Como poderá haver auto-estima sem os cuidados básicos e como é que se aguenta tanta dor e por que raio está toda a gente a olhar..

 

Sou daquelas pessoas que passa semanas sem lhe ocorrer, sequer, que existe televisão. De cada vez que a ligo vejo-a tão mal aproveitada enquanto meio de comunicação de massas por excelência, que a desligo desanimada.

 

Será que não há ninguém com miolos realistas e sem mais olhos do que barriga, que agarre num jornal televisivo e o profissionalize?

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cenas ao molho:


Teresa Alves | 28.12.09

Cenas nem sempre óbvias

O futuro é mais importante do que o passado.

Às vezes perdemos demasiado tempo a analisar o passado. Queremos saber porquê e não saímos dali. Mas qualquer que seja a resposta, o caminho será o futuro, e este só acontece se nos focarmos nele. Enquanto a tentar compreender o passado, o presente estende-se, e o futuro nunca mais vem.

 

Um pai nunca morre.

Nem só as memórias prolongam uma pessoa. É o seu sangue nas nossas veias, o seu humor nas nossas surpresas e as suas lições no nosso carácter, o que lhe estende a existência. As saudades, em certos casos, não passam de uma ponta de egoísmo, um esgar da nossa própria carência, ainda que impressa na vontade simples de um abraço.

 

As pessoas não mudam.

As pessoas continuarão a perseguir o que escolheram perseguir, certo ou errado, que importa, se vale tudo para ter um caminho a seguir, ainda que em círculos, pois o movimento ilude a alma. Somos o que sonhamos e o que sentimos. Somos o sumo de muitos anos, a que só outro tanto tempo pode mudar o sabor, lentamente. As pessoas não mudam porque vivem tudo muito depressa.

 

A sanidade e a insanidade não se distinguem.

Desde que ficou claro ser o conceito de "normalidade" um camaleão que se adapta a cada cultura, bairro, grupo e até a cada pessoa, também a diferenciação entre o são e o louco se perdeu na multiplicidade de interpretações possíveis de um acto. No fundo, todos somos um pouco loucos, se originais nos nossos desígnios, não alinhando na carneirada social que leva os rebanhos bem comportados.

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cenas ao molho:



moradores

 

um gato no telhado, uma humana por casa e uma erva no canteiro